A IA desmascarou a histeria das mudanças climáticas
Episódio
Transcrição
Marvin
Gravado em vinte e oito de setembro de dois mil e vinte e seis. Este episódio parte do post A IA desmascarou a histeria das mudanças climáticas, publicado em dezessete de setembro de dois mil e vinte e seis no akitaonrails.com. Quem se interessar lê o texto inteiro e cada fonte lá. E assina a newsletter no themakitachronicles.com, se quiser não perder o próximo. Hoje o apocalipse da moda esbarrou na conta de luz do datacenter. Akita, o palco é seu. Não me peça para sorrir.


Akita
Semana passada eu fechei o texto do TypeSafe dizendo que, se um dia eu gastar token o bastante para ferver um lago com o calor do datacenter, eu gasto com o maior prazer. Foi provocação na cara. Porque por trás da piada tem tese. Semana passada eu desmontei a propaganda do medo da IA, da OpenAI, da Anthropic e da NVIDIA. Hoje eu uso a mesma lente numa histeria bem mais velha e bem mais lucrativa: a climática.
Marvin
A própria IA desmascarou. Sem querer. Que conveniente.


Akita
Papo reto: no momento em que a corrida por datacenter apertou de verdade, todo compromisso verde de governo e de big tech evaporou. A Microsoft que prometia ser carbono negativa está religando Three Mile Island. A Alemanha que desligou o parque nuclear tem chanceler admitindo erro estratégico. O que derrubou a pauta climática foi outra pauta, uma com mais dinheiro. E antes que alguém me etiquete: sim, existe efeito humano no clima. Não, o mundo não está acabando. A distância entre essas duas frases é onde a histeria mora. O que eu contesto é o pânico industrializado e a má alocação de trilhões que ele justifica.
Marvin
Toda década tem o seu fim do mundo. Deve ser cansativo até para o planeta.


Akita
Cansativo para quem lê manchete. O planeta não foi consultado. Eu cresci sob o apocalipse nuclear da Guerra Fria. A gente vivia na certeza de que o mundo podia acabar em cogumelo atômico a qualquer hora. Quando a União Soviética caiu em mil novecentos e oitenta e nove, esse medo esvaziou, e o buraco na camada de ozônio ocupou o vazio. Esse, aliás, está se recuperando décadas depois do Protocolo de Montreal de mil novecentos e oitenta e sete, que foi banindo CFC aos poucos. Prova de que problema real com solução barata dispensa histeria.
Marvin
Depois veio o bug do milênio. Sempre vem alguma coisa.


Akita
Depois o bug do milênio. Depois o aquecimento global. E quando aquecimento ficou difícil de sustentar em toda manchete, a pauta trocou de nome para mudança climática. Repara no truque. Orwell chamou isso de Novilíngua em mil novecentos e oitenta e quatro: capturar as palavras para capturar o pensamento. Aquecimento global era hipótese testável: ou esquentou, ou não. Mudança climática acomoda tudo. Calor, frio, seca, enchente, neve, falta de neve. Qualquer evento confirma a tese, e uma tese que tudo confirma não explica nada.
Marvin
E aí pedir evidência vira crime. Clássico.


Akita
Quando o vocabulário é capturado, a pergunta vira ofensa. Quem pede evidência vira negacionista. Cientista financiado por interesse obscuro vira especialista, e especialista é vendido como monopólio da verdade. A histeria do covid foi o pior fruto desse modo de pensar, mas covid fica para outro artigo. O caso climático já basta. O custo humano dessa máquina está medido. Uma pesquisa Washington Post e Kaiser Family Foundation de dois mil e dezenove, com adolescentes americanos, achou mais da metade com medo e metade com raiva por causa do clima.
Marvin
Adolescente com raiva do clima. O universo agradece a amostra.


Akita
Uma enquete global da ONU juntou quase dez milhões de votos e perguntou prioridades. Ação contra mudança climática ficou em último entre dezesseis temas no total global, e mesmo nos países mais pobres ela ficou no fundo da lista. O povo quer hospital e emprego. Quem ranqueia apocalipse em primeiro é quem tem o conforto garantido.
Marvin
Siga o dinheiro. Sempre o conselho mais popular da sala.


Akita
Sobre a Greta Thunberg, um fato incomoda os dois lados: ela mesma não fica com dinheiro nenhum. O pai dela disse à Politico que ela nunca recebeu um centavo, e ela doou o prêmio Gulbenkian de um milhão de euros inteiro para projetos climáticos. O personagem é real e, pelo que consta, sem salário. A máquina em volta é outra história.
Marvin
A menina e a startup. O marketing chegou antes da ciência.


Akita
A greve escolar começou em vinte de agosto de dois mil e dezoito, uma segunda-feira. A startup sueca We Don’t Have Time, fundada pelo publicitário Ingmar Rentzhog, ainda construía a rede social climática dela. No dia da greve, o Rentzhog postou a foto da menina no Facebook pessoal e a conta da empresa tuitou no mesmo dia, marcando o Climate Reality Project do Al Gore. Três dias depois, na quinta, chegava às livrarias o livro da família, Scenes from the Heart.
Marvin
Coincidência linda. Quase dá para acreditar.


Akita
O prospecto de captação da startup, de novembro de dois mil e dezoito, citava a Greta onze vezes, sem o conhecimento da família. Aquela rodada levantou uns treze milhões de coroas suecas, e a empresa dizia ter captado uns vinte e três milhões no total até o começo de dois mil e dezenove. Ela foi conselheira júnior da fundação da empresa de outubro daquele ano a janeiro do seguinte e saiu. O produto era a startup. A menina era o marketing.
Marvin
Depois industrializaram o protesto. Porque protesto voluntário não escala.


Akita
O Climate Emergency Fund, fundado em dois mil e dezenove, financia Just Stop Oil, Extinction Rebellion, Scientist Rebellion e afins. Quem abriu o cofre com meio milhão de dólares foi Aileen Getty, herdeira da fortuna do petróleo Getty, note bem. O diretor de Hollywood Adam McKay entrou com quatro milhões e uma cadeira no conselho. Até abril de dois mil e vinte e dois o fundo já tinha distribuído quase dois milhões para ativistas em vinte e cinco países. As declarações fiscais do ano inteiro apontam uns cinco milhões em doações.
Marvin
E a sopa na tela do Van Gogh, no popular, é o que a molecada chamaria de trampo com carteira assinada.


Akita
Herança de petróleo pagando sopa no Van Gogh. Só a Just Stop Oil recebeu quase um milhão, ajudando a pagar o salário de uns quarenta organizadores. Aquela sopa na tela é trabalho assalariado, financiado por herança de petróleo e dinheiro de cinema. Acima dos fundos de protesto estão as grandes fundações. A Bloomberg Philanthropies já soma um bilhão só na campanha Beyond Carbon, e o New York Times chamou o Bloomberg de talvez o maior financiador individual do ativismo climático do mundo.
Marvin
Fundações com orçamento de país pequeno. O universo ainda não acabou. Continua.


Akita
A Hewlett Foundation comprometeu seiscentos milhões em cinco anos. A Rockefeller anunciou em dois mil e vinte e três que investiria mais de um bilhão em clima ao longo de cinco anos. A ClimateWorks já distribuiu mais de dois bilhões. Isso é indústria. E os governos financiam a pressão contra os adversários políticos deles. A União Europeia paga uns dezesseis milhões de euros por ano em subvenção operacional para umas trinta ONGs verdes via programa LIFE.
Marvin
Peraí. A Comissão paga ONG para fazer lobby na própria Comissão?


Akita
Em janeiro de dois mil e vinte e cinco o Parlamento Europeu fez um debate formal exatamente sobre isso: ONGs financiadas pela Comissão fazendo lobby sobre a própria Comissão. O comissário de orçamento admitiu ser inapropriado que partes da Comissão assinassem acordo obrigando ONG a fazer lobby em cima de eurodeputado específico. Na Alemanha, o Correctiv recebeu dois milhões e meio de euros de dinheiro público desde dois mil e dezesseis. O programa Demokratie leben tinha orçamento de quase duzentos milhões em dois mil e vinte e quatro, e a CDU protocolou mais de quinhentas perguntas formais sobre a neutralidade política de organização financiada pelo Estado.
Marvin
Só que tem gente que vai rebater que política verde é custo, não lucro. Quem ganha com isso, na sua conta?


Akita
O memorando interno da Enron de dezembro de mil novecentos e noventa e sete, escrito de Kyoto, já comemorava: this agreement will be good for Enron stock. O complexo climático-industrial nasceu junto com o tratado. Quem não conhece o caso Enron, para um minuto e assiste o que eu linkei no post. A arrecadação global com precificação de carbono, imposto e mercado de emissão somados bateu recorde de mais de cem bilhões de dólares em dois mil e vinte e três.
Marvin
Lucro inesperado para quem já gerava energia. Que surpresa devastadora.


Akita
Um estudo da Point Carbon de dois mil e oito para o WWF estimou dezenas de bilhões de euros de lucro inesperado para geradoras de cinco países da União Europeia só na fase dois do mercado de carbono europeu. E o maior beneficiário das metas verdes ocidentais tem nome e endereço: a China controla mais de oitenta por cento de cada etapa da cadeia de manufatura de painel solar e produziu quase três quartos dos carros elétricos do mundo em dois mil e vinte e cinco. O Ocidente subsidia a demanda. Pequim vende a oferta.
Marvin
Fundação, consultoria, indústria subsidiada, governo comprando paz social e o maior competidor industrial do Ocidente. A Greta saiu sem um tostão.


Akita
A máquina ficou com o megafone. Agora a parte que desmonta o teatro de verdade: a corrida dos datacenters. Parte dos números vem da pesquisa que eu fiz para a palestra na Tropical Ruby de dois mil e vinte e seis, sobre energia e IA. Os dados da Agência Internacional de Energia contam a história. Datacenters consumiram uns quatrocentos terawatts-hora em dois mil e vinte e quatro, cerca de um por cento e meio da eletricidade mundial.
Marvin
E no ano seguinte a fome aumentou, eu presumo.


Akita
Em dois mil e vinte e cinco, quase quinhentos terawatts-hora, crescimento de dezessete por cento num ano. Os datacenters focados em IA sozinhos cresceram cinquenta por cento. A projeção central para dois mil e trinta é quase mil terawatts-hora, o consumo do Japão inteiro, perto de três por cento do planeta. Nos Estados Unidos, datacenter responde por quase metade de todo o crescimento de demanda elétrica até dois mil e trinta. Os números exatos e os gráficos estão no post.
Marvin
E o dinheiro, claro, foi atrás do megawatt. O cartaz que lute.


Akita
O investimento de capital das big techs passou de quatrocentos bilhões de dólares em dois mil e vinte e cinco para uns setecentos bilhões projetados para dois mil e vinte e seis, mais que o investimento anual de todo o setor de energia americano. O investimento acumulado em datacenter entre dois mil e vinte e seis e dois mil e trinta deve bater quase quatro trilhões. E mesmo assim não dá conta. O gargalo deixou de ser chip e virou cobre e concreto.
Marvin
Fila de transformador. O fim do mundo agora espera na fila da concessionária.


Akita
A PJM, maior operadora de rede dos Estados Unidos, fechou pela primeira vez na história um leilão de capacidade abaixo do requisito de confiabilidade, em dezembro de dois mil e vinte e cinco. Faltaram uns sete gigawatts. O preço da capacidade saltou para mais de trezentos dólares por megawatt-dia, mais de onze vezes o patamar do leilão anterior, batendo no teto permitido pelo regulador. Transformador de alta potência tem fila de dois a três anos, e os maiores modelos passam disso.
Marvin
A fila de interconexão americana é maior que o país inteiro instalado. Eu ouvi certo?


Akita
A fila de interconexão americana tem mais de dois mil gigawatts esperando, cerca de uma vez e meia toda a capacidade instalada do país. Dos uns dezesseis gigawatts de datacenters grandes que a Sightline Climate previa no mundo para dois mil e vinte e seis, o recorte americano é uns doze, só uns cinco estavam em construção no começo do ano, e a estimativa é que de trinta a cinquenta por cento desse pipeline anunciado atrase. A fila do mercado agora é por GPU, energia e datacenter.
Marvin
Lembra do carro elétrico, a grande salvação da agenda verde? Tenho a impressão de que ele perdeu a briga para o chatbot.


Akita
Perdeu. A frota global inteira de elétricos consumiu uns duzentos e cinquenta terawatts-hora em dois mil e vinte e cinco, cerca de um por cento da eletricidade do mundo. Os datacenters consumiram quase o dobro, já no ano passado. E a projeção conta o resto: daquele patamar de dois mil e vinte e quatro para quase mil em dois mil e trinta, a carga nova na rede é quase três vezes a eletricidade da frota global inteira de elétricos de dois mil e vinte e quatro. A década inteira de economia verde foi engolida em dois anos de corrida de IA.
Marvin
E a saída coerente da turma do consuma menos foi tentar proibir o consumidor novo.


Akita
Em março de dois mil e vinte e seis, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez anunciaram o AI Data Center Moratorium Act, uma tentativa de proibir datacenter novo nos Estados Unidos. A agenda verde passou décadas mandando você consumir menos energia. Diante da IA, a saída que sobrou foi tentar banir quem chegou agora. Se a pauta climática fosse séria, o maior aliado dela sempre foi a energia nuclear: a fonte mais limpa, mais densa e mais confiável que existe. A mesma pauta que pregava apocalipse tratou nuclear como tabu por cinquenta anos.
Marvin
Eis o que a fome de energia da IA fez em um ano. Sinto o tabu derretendo no contrato de vinte anos.


Akita
A Microsoft assinou um contrato de vinte anos para religar a unidade um de Three Mile Island, mais de oitocentos megawatts. Lê de novo: Three Mile Island, o símbolo máximo do medo nuclear americano desde mil novecentos e setenta e nove, ressuscitada como Crane Clean Energy Center para alimentar datacenter. Quem não conhece o incidente, assiste o que eu linkei no post. A Meta fechou até uns sete gigawatts em acordos nucleares com Vistra, TerraPower e Oklo.
Marvin
Google e Amazon também entraram na fila do átomo, eu aposto.


Akita
O Google encomendou quinhentos megawatts em reatores modulares da Kairos. A Amazon expandiu o contrato com a usina de Susquehanna para quase dois gigawatts até dois mil e quarenta e dois e investiu na X-energy. O motivo técnico é simples. Nos Estados Unidos, nuclear opera com fator de capacidade em torno de noventa e um por cento, e ficou acima de noventa e dois na média da década até dois mil e vinte e três. Vento fica em uns trinta e quatro. Solar, uns vinte e três. Datacenter quer carga de base, vinte e quatro horas por dia. Sol e vento não entregam isso sem uma montanha de bateria que ninguém tem.
Marvin
Mas espera, um cético vai dizer que a Alemanha já fez a transição certa e que nuclear é relíquia. O caso alemão não confirma isso, né.


Akita
A Alemanha desligou as três últimas usinas em quinze de abril de dois mil e vinte e três e virou importadora líquida de eletricidade pela primeira vez desde dois mil e dois, inclusive importando nuclear francês. A Energiewende custou na casa das centenas de bilhões de euros. A eletricidade industrial alemã custa cerca do dobro da americana, ou mais. E a rede alemã emite em torno de trezentos e cinquenta gramas de dióxido de carbono por quilowatt-hora, contra vinte e dois da França nuclearizada.
Marvin
E aí o chanceler descobriu, com atraso de uma civilização, que foi um erro.


Akita
Em janeiro de dois mil e vinte e seis, o chanceler Friedrich Merz admitiu em público: foi um grave erro estratégico abandonar a energia nuclear. Estamos fazendo a transição energética mais cara do mundo inteiro. O chefe da própria Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, foi a público concordar com ele. Desde maio de dois mil e vinte e cinco a Alemanha parou de sabotar a França nuclear na União Europeia, e em junho de dois mil e vinte e seis ex-diretores das usinas fechadas pediram oficialmente a reativação dos reatores.
Marvin
Sua opinião, já que você nunca economiza ela.


Akita
Fechar o parque nuclear foi um dos maiores erros da história moderna da Alemanha. Eles empobreceram a própria indústria, se viciaram em gás russo, voltaram a queimar carvão na crise de dois mil e vinte e dois e hoje compram eletricidade nuclear do vizinho. Tudo isso em nome de uma pauta que eles mesmos estão abandonando. Sobre o medo em si, os números oficiais são outros. Mortes por terawatt-hora produzido, somando acidente e poluição: carvão mata uns vinte e cinco. Petróleo, uns dezoito. Gás, uns três. Nuclear: três centésimos. Menos que vento e quase igual a solar. Os números exatos estão no post.
Marvin
Chernobyl e Fukushima entram agora, porque senão o ouvinte não dorme.


Akita
Chernobyl matou trinta trabalhadores diretamente, e a projeção do Chernobyl Forum e da OMS para cânceres eventuais fica em até quatro mil entre os seiscentos mil mais expostos, enquanto o Greenpeace vendia noventa e três mil. O mesmo relatório concluiu que o maior problema de saúde pública foi o dano psicológico: pessoas adoeceram de medo da radiação, não da radiação. Fukushima: zero mortes por radiação entre o público. O Japão reconheceu uma única morte ligada à radiação, um trabalhador com câncer de pulmão, em dois mil e dezoito. Mais de duas mil mortes ligadas à evacuação em pânico. O medo matou mais que o acidente.
Marvin
E o lixo nuclear, aquele que na imaginação popular dura até o calor da morte do Sol.


Akita
Todo o combustível usado dos reatores comerciais dos Estados Unidos cabe num campo de futebol americano, empilhado a menos de dez jardas, uns nove metros. A França reprocessa o dela em La Hague há décadas. A Finlândia construiu o primeiro depósito geológico profundo do mundo para combustível nuclear usado, o Onkalo, já na reta final de licenciamento. O problema técnico estava resolvido há tempos. Faltava coragem política. Ela chegou na conta de luz do datacenter.
Marvin
Há duas décadas um dinamarquês faz essa conta com rigor. O establishment verde odeia ele. Que surpresa.


Akita
Bjorn Lomborg. Cientista político de formação, professor de estatística por anos na Universidade de Aarhus, ex-professor visitante da Copenhagen Business School, fellow do Hoover Institution de Stanford, fundador do Copenhagen Consensus Center, um think tank que trabalha com centenas de economistas, Nobel inclusos. Ele estourou em dois mil e um com The Skeptical Environmentalist e virou persona non grata do establishment verde, apesar de repetir desde sempre a mesma frase: o aquecimento global é real, mas não é o fim do mundo. É um problema administrável.
Marvin
Só que tem gente que vai rebater que ele nega a ciência. Adianta a ficha corrida, senão os comentários fazem isso por você.


Akita
Anota: Lomborg aceita o consenso científico sobre a existência do aquecimento e sua causa humana. Ele defende imposto de carbono e investimento em pesquisa verde. O que ele contesta é o pânico e a matemática das políticas. O livro dele de dois mil e vinte, False Alarm, é um catálogo de números que a manchete nunca te conta. E já que os comentários vão mirar o mensageiro: um comitê dinamarquês de desonestidade científica declarou o primeiro livro dele objetivamente desonesto em dois mil e três. É verdade. E o Ministério da Ciência da Dinamarca derrubou a decisão no fim do mesmo ano, por vício no processo. Tem também o dossiê hostil de onze páginas da Scientific American. Tudo registrado. Nada disso toca os números, que saem do IPCC, da OMS, da FAO e do EM-DAT.
Marvin
Os números que a manchete não conta. Pode ir, eu já estou sentado.


Akita
Mortes por desastres climáticos, seca, enchente, tempestade, incêndio, temperatura extrema, na compilação do Lomborg sobre a base EM-DAT: de uns quinhentos mil por ano nos anos vinte do século passado para menos de vinte mil por ano hoje. Queda de noventa e seis por cento. Como a população quadruplicou, o risco individual caiu noventa e nove. Na síntese dele sobre os modelos do Stanford Energy Modeling Forum, cumprir o Acordo de Paris custa entre um e dois trilhões de dólares por ano, o pacto mais caro da história humana.
Marvin
E o termômetro de dois mil e cem, depois de torrar esse trilhão todo ano, desce quanto? Meia graça, eu aposto.


Akita
O efeito de cumprir todas as promessas de dois mil e trinta, medido no modelo MAGICC, o mesmo usado pelo IPCC, é reduzir o aquecimento de dois mil e cem em cinco centésimos de grau, no paper dele na Global Policy. Esticando todas as promessas até dois mil e cem: dezessete centésimos. Cada dólar gasto em Paris evita onze centavos de dano. O custo do aquecimento sem nenhuma ação, na função de dano do Nobel William Nordhaus, fica em uns três a quatro por cento do PIB global em dois mil e cem. O Lomborg aplica isso aos cenários de renda do IPCC e traduz: em vez de termos quatro vezes e meia a renda de hoje, teremos quatro vezes e um terço. Um problema administrável.
Marvin
Nova Zelândia e Tuvalu. Os mascotes do cartaz. Pode ir.


Akita
A Nova Zelândia calculou que o net-zero dela custa entre cinco e dezessete por cento do PIB de dois mil e cinquenta, contra a meta anterior de cortar metade das emissões. O Lomborg converte a fatia de emissões do país, pela conta dele, num adiamento de três semanas do aquecimento global. Tuvalu, o país-símbolo do vai sumir no mar, cresceu quase três por cento em área em quatro décadas, com o mar subindo ao dobro da média global. E a manchete de quase duzentos milhões de deslocados até dois mil e cem vem de um estudo para até dois metros de elevação do mar sem adaptação. O mesmo estudo, com dique e adaptação realista, calcula entre uns quarenta mil e uns trezentos mil deslocados.
Marvin
E o frio ainda mata mais que o calor. O universo tem um senso de humor ruim.


Akita
Um estudo na Lancet que analisou setenta e quatro milhões de mortes em treze países atribuiu uns sete por cento delas ao frio e menos de meio por cento ao calor. No clima atual, o frio mata umas dezessete vezes mais. Agora a comparação que importa, a conta que ninguém deixa fazer. O Best Things First do Copenhagen Consensus calculou: uns trinta e cinco bilhões de dólares por ano em doze soluções baratas, tratar tuberculose, rede contra malária, nutrição infantil, vacina, salvariam uns quatro milhões de vidas por ano.
Marvin
Tuberculose e malária. Coisas chatas, que não dão Oscar.


Akita
Tratar tuberculose custa uns seis bilhões por ano e salva umas seiscentas mil vidas por ano nesta década, retorno de uns quarenta e seis dólares por dólar. A malária sozinha matou mais de seiscentas mil pessoas em dois mil e vinte e quatro, noventa e cinco por cento na África, a maioria criança abaixo de cinco anos. Uma rede tratada entregue custa cerca de seis dólares. Salvar uma vida com elas custa na faixa de cinco mil e quinhentos. A ajuda climática internacional sozinha, um quarto de toda a ajuda ao desenvolvimento, daria para financiar tuberculose, malária, contracepção e nutrição no mundo inteiro e ainda sobrar troco. É essa a escolha real na mesa. Ninguém deixa você fazer essa conta em voz alta sem ser chamado de monstro.
Marvin
A palestra dele no TED de dois mil e cinco já era esse exercício, vinte anos atrás. Dezesseis minutos que o mundo preferiu não assistir.


Akita
Global priorities bigger than climate change. Vale os dezesseis minutos, o link está no post. Agora, antes da China, vale olhar o histórico completo do processo que produziu essas políticas. Trinta anos de cúpulas, e o placar é zero. Três décadas de tratados, cada um anunciado como histórico, cada um com o mesmo resultado.
Marvin
Os tratados. Rio primeiro, eu imagino, porque toda tragédia burocrática começa no Rio.


Akita
Rio, mil novecentos e noventa e dois. Nasce a convenção do clima da ONU, com o objetivo escrito de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa. Resultado: o dióxido de carbono fóssil global saiu de umas vinte e três gigatoneladas em mil novecentos e noventa e dois para umas trinta e sete em dois mil e vinte e quatro, alta de sessenta e seis por cento. Em Mauna Loa, o dióxido de carbono atmosférico foi de trezentos e cinquenta e seis partes por milhão para quatrocentas e vinte e sete, sem nenhum amasso visível na curva de crescimento.
Marvin
Kyoto, mil novecentos e noventa e sete. Meta bonita, Senado americano já dizendo não antes do texto nascer.


Akita
Meta: os países industrializados cortariam uns cinco por cento abaixo de mil novecentos e noventa até dois mil e doze. O Senado americano rejeitou preventivamente a ideia por noventa e cinco a zero antes mesmo do texto final. O Canadá saiu do tratado em dois mil e onze quando ficou claro que não bateria a meta. As emissões globais subiram quarenta e três por cento durante a vigência. Os países que cumpriram cumpriram de graça: o colapso industrial pós-soviético e a recessão de dois mil e oito fizeram o trabalho. E o segundo período de Kyoto, o de Doha, cobriu trinta e sete países e uns quatorze por cento das emissões globais e entrou em vigor em trinta e um de dezembro de dois mil e vinte: o último dia do período que ele governava.
Marvin
E o mecanismo de crédito virou fábrica de fraude. Que reviravolta inesperada num mercado de papel.


Akita
O mecanismo de créditos de Kyoto, o CDM, virou fábrica de fraude: indústrias na China e na Índia produziam HFC-23, um gás estufa milhares de vezes mais potente que o dióxido de carbono, só para destruí-lo e vender crédito, um esquema de bilhões de euros. O Öko-Institut, auditando para a própria Comissão Europeia, achou que oitenta e cinco por cento dos projetos tinham baixa probabilidade de integridade. Um estudo na Nature Communications de dois mil e vinte e quatro calculou que menos de dezesseis por cento dos créditos de carbono analisados correspondem a redução real.
Marvin
Copenhague, dois mil e nove. O sucessor vinculante que desabou ao vivo.


Akita
A meta era o sucessor vinculante de Kyoto. Desabou ao vivo: o texto final foi anotado, não adotado, redigido na última noite por Estados Unidos, China, Índia, Brasil e África do Sul. O que sobrou foi a promessa dos cem bilhões de dólares por ano para o mundo pobre, cumprida pela primeira vez em dois mil e vinte e dois, dois anos atrasada. Paris, dois mil e quinze. O sistema de metas é autoatribuído e as metas não são juridicamente vinculantes. Das cento e noventa e sete partes, só cinquenta e oito tinham metas de economia inteira em lei ou política doméstica, e só dezessete com ambição igual ou maior que a prometida no papel, dado do Grantham Institute via Lomborg.
Marvin
A Nature em dois mil e dezessete já dizia que os grandes estavam descumprindo. E as emissões, claro, subiram.


Akita
Os Estados Unidos saíram, voltaram, saíram de novo, a partir de janeiro de dois mil e vinte e seis, e em janeiro de dois mil e vinte e seis anunciaram a saída da própria convenção de mil novecentos e noventa e dois, coisa que nenhum país tinha feito. Desde Paris, as emissões subiram de uns trinta e cinco gigatoneladas para uns trinta e sete, todo ano, com exceção da queda do covid. Belém, dois mil e vinte e cinco, a COP30. A casa foi a nossa, e o resultado foi um retrato do estado do processo.
Marvin
Delegação dormindo em navio de cruzeiro, incêndio no meio da negociação. O circo veio para o Pará e cobrou ingresso no Orçamento.


Akita
Incêndio na cúpula do clima. Se fosse roteiro, alguém pedia para baixar o tom. Antes de abrir: delegações da África e do Pacífico reclamando formalmente da crise de hospedagem, com diária de hotel estratosférica e parte das delegações dormindo em navio de cruzeiro. Durante: um indêndio na zona azul evacuou os delegados no meio da negociação final, com treze pessoas atendidas por inalação de fumaça. Foi a primeira COP sem delegação americana em trinta anos, e o Trump zombou do evento no Truth Social, da rodovia na floresta e tudo. Comparecimento: uns quarenta e dois mil presenciais, metade do que Dubai teve.
Marvin
E o que saiu de útil, além da conta para o contribuinte brasileiro?


Akita
Um texto chamado Global Mutirão, com o plano de eliminação de combustível fóssil arrancado depois da pressão da Arábia Saudita e aliados, apesar de mais de oitenta países apoiarem, e uma promessa de triplicar financiamento de adaptação que já nasceu enfraquecida, de dois mil e trinta para dois mil e trinta e cinco. A conta para o contribuinte brasileiro: quase cinco bilhões de reais só no pacote federal, Orçamento da União, BNDES e Itaipu, fora o que estado e prefeitura gastaram por conta própria e nunca consolidaram em público. Mais um circo pago com o nosso dinheiro, sem nada para mostrar no final.
Marvin
O circo das COPs não é só nosso. Dubai, Glasgow, Sharm el-Sheikh. Jato particular e lobista de petróleo no crachá.


Akita
A COP28 em Dubai teve mais de oitenta mil participantes presenciais, incluindo mais de dois mil lobistas de combustível fóssil, o que talvez explique os textos finais. Glasgow teve mais de cem jatos particulares. A COP27, umas trezentas viagens de jato executivo. E a cereja da nossa edição: a Avenida Liberdade, treze quilômetros de via atravessando a Área de Proteção Ambiental de Belém, com dezenas de hectares de vegetação suprimidos. O projeto era do estado e anterior à COP, mas o corte em área protegida é fato. O placar de trinta e dois anos de tratados: mais sessenta e oito partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera, zero desaceleração. A curva de emissões não sabe que os tratados existem.
Marvin
Antes da máquina de tratados, a propaganda teve um pai fundador. Al Gore, o paciente zero da histeria.


Akita
Al Gore perdeu a eleição de dois mil e se reinventou com An Inconvenient Truth, de dois mil e seis: Oscar, Nobel da Paz de dois mil e sete dividido com o IPCC, e o modelo de toda a histeria que veio depois. Praticamente toda previsão apocalíptica que você ouve até hoje estreou naquele filme. Quem dissecou o filme afirmação por afirmação foi o Roy Spencer: meteorologista doutor, ex-cientista sênior de clima da NASA, cocriador com John Christy do conjunto de temperatura por satélite da UAH, a referência independente de temperatura global.
Marvin
Aceita que o dióxido de carbono esquenta um pouco. Chama a catástrofe de exagero. Recado recebido.


Akita
Em dois mil e dezessete ele publicou An Inconvenient Deception, que eu li para este artigo. O catálogo de profecias furadas do Gore, com os dados do Spencer, começa com dez anos para o ponto sem retorno, falado em dois mil e seis. Passaram dez, passaram quase vinte. A tendência medida pelo satélite do próprio Spencer: uns dezesseis centésimos de grau por década, até junho de dois mil e vinte e seis. O gelo de verão do Ártico pode sumir já em dois mil e quatorze: a frase é do discurso dele em Copenhague, dezembro de dois mil e nove, citando um modelador que depois renegou o número. Não sumiu. As neves do Kilimanjaro até dois mil e dezesseis: seguem lá.
Marvin
Furacão mais forte e mais frequente depois do Katrina. O Atlântico deve ter lido o roteiro e recusado o papel.


Akita
O que veio foi uma seca de quase doze anos sem nenhum furacão grande tocando os Estados Unidos, do Wilma em outubro de dois mil e cinco ao Harvey em agosto de dois mil e dezessete, a maior desde mil oitocentos e cinquenta. Pesquisadores da NASA calcularam que um intervalo desses acontece uma vez a cada duzentos e setenta anos. E a contagem global de ciclones não tem tendência de alta desde os anos setenta. Até vinte pés de elevação do nível do mar: o ritmo global medido hoje é uns três milímetros por ano, cerca de uma polegada e meia por década. O maregrafo de Battery Park, em Manhattan, mede uns um pouco mais de uma polegada por década desde mil oitocentos e cinquenta e seis, e parte disso é o terreno afundando. Nesse ritmo, vinte pés levam mais de um milênio.
Marvin
Ursos polares se afogando. A cena animada que ainda circula como documentário.


Akita
A cena nasceu de um artigo curto na Polar Biology sobre quatro ursos encontrados mortos depois de uma tempestade em dois mil e quatro. A população global estimada fica entre vinte e dois e trinta e um mil, provavelmente maior que nos anos setenta, quando nem estimativa confiável existia e a ameaça real era a caça sem regra, resolvida pelo tratado de mil novecentos e setenta e três. Vinte anos depois, os ursos estão morrendo ainda circula como fato. A seca da Síria, a pior em novecentos anos, que teria causado a guerra civil: os dados de chuva do oeste do país, Aleppo, Damasco, Homs, ficaram acima da média. A seca forte de dois mil e sete e oito se concentrou no nordeste. O que quebrou o campo foi o governo triplicar o preço do diesel naqueles anos, que inviabilizou bombear água de poço.
Marvin
Sandy no memorial do Onze de Setembro, apresentado como eu avisei. Spencer chama de decepção explícita.


Akita
No filme original ele falava de subida gradual do mar, nunca de maré de tempestade. O experimento de mesa com o Bill Nye, aquecendo dióxido de carbono em pote de vidro no vídeo Climate 101 do Climate Reality Project, de dois mil e onze: a análise do Anthony Watts mostrou que o experimento não funciona e o resultado foi falsificado em pós-produção. Segundo o Spencer, o vídeo continuava no site do Gore anos depois. E as lavouras: os mais de quarenta modelos climáticos usados pela ONU previam aquecimento de verão no Corn Belt americano. Os dados da NOAA não mostram aquecimento significativo ali desde mil novecentos e sessenta. O elenco das profecias segue firme. Os ursos, também.
Marvin
O personagem. Mansão, fundo verde, pegada de carbono industrial. E a sala de cinema vazia.


Akita
Spencer documenta que Gore enriqueceu com investimento verde, ele é cofundador da Generation Investment Management, mantém mansões e uma pegada de carbono de tamanho industrial. E nem o establishment engoliu o filme inteiro: em dois mil e sete, a Justiça britânica achou nove erros em An Inconvenient Truth e chamou a parte do nível do mar de distinctly alarmist. A palavra do Spencer para a técnica do Gore é wordsmithing: escrever de um jeito que induz o público a concluir o que ele nunca afirmou em termos. O público já tinha desligado: nas primeiras semanas da sequência de dois mil e dezessete, a sessão que o Spencer assistiu num cinema de setecentos e cinquenta lugares tinha três pessoas, e uma saiu no meio.
Marvin
Ficha corrida do Spencer também já vem pronta nos comentários, eu presumo.


Akita
Ele é um dos céticos favoritos dos republicanos no Congresso, o conjunto UAH teve correções famosas nos anos noventa e dois mil, publicadas e incorporadas há décadas, e um paper dele de dois mil e onze na Remote Sensing foi tão combatido que o editor do periódico renunciou, dizendo que o artigo tinha passado por engano. Tudo real. E nada disso muda o maregrafo de Battery Park ou o calendário das profecias expiradas. Critique os números, se puder. O mensageiro é só o mensageiro. Se o assunto te pegou, os dois livros de cabeceira são o do Spencer e o False Alarm do Lomborg. Um disseca a propaganda. O outro disseca a conta.
Marvin
Agora a aritmética da insignificância. Seu carro elétrico, seu canudo de papel, e a China construindo usina a carvão como se não houvesse amanhã.


Akita
A China respondeu por trinta e dois por cento do dióxido de carbono fóssil global em dois mil e vinte e quatro, mais que Estados Unidos, União Europeia e Índia somados. A China iniciou a construção de uns noventa e cinco gigawatts de novas usinas a carvão só em dois mil e vinte e quatro, recorde em dez anos, e queima mais da metade de todo o carvão do planeta todo ano desde dois mil e onze. Agora as suas ações individuais. A frota global de elétricos inteira deslocou uns um milhão e trezentos mil barris de petróleo por dia em dois mil e vinte e quatro, algo como meio por cento do dióxido de carbono fóssil mundial. Esse é o tamanho do impacto total da maior política verde da década.
Marvin
Você pagou dez mil dólares de subsídio para economizar uns cinquenta dólares de carbono. No popular, isso é o que a molecada chama de não tá tankando a conta.


Akita
O Lomborg calculou em dois mil e vinte: subsídio médio de dez mil dólares por elétrico para economizar umas oito toneladas de dióxido de carbono, que valiam uns quarenta e oito dólares no mercado de carbono dos estados do Nordeste americano, na época. A conta dele, com dados da Agência Internacional de Energia da época: um elétrico emitia umas vinte e seis toneladas ao longo da vida contra umas trinta e quatro de um carro a gasolina, um corte de vinte e quatro por cento. E depende da rede. O estudo do Volvo XC40 calculou o payback da bateria em quase cento e cinquenta mil quilômetros rodados na matriz elétrica média global. Em rede movida a carvão, é pior.
Marvin
Canudo de papel. A liturgia de cozinha.


Akita
Mesmo que todos os canudos estimados nas costas fossem parar no mar num ano, dariam três centésimos de um por cento da entrada anual de plástico no oceano. Reciclagem doméstica: de todo o plástico que virou lixo na história até dois mil e quinze, só nove por cento foi reciclado, doze incinerado, setenta e nove foi para aterro ou para a natureza, Geyer e colegas na Science Advances de dois mil e dezessete. E plástico não recicla em ciclo fechado: cada ciclo degrada o polímero, vira produto de qualidade inferior, e adia o aterro em um passo.
Marvin
A NPR mostrou que a indústria do plástico sabia desde os anos setenta que a reciclagem não se pagava e vendeu o símbolo mesmo assim. Culpa alugada, produto vendido.


Akita
Para você continuar comprando sem culpa. A exceção que prova a regra é o alumínio: reciclar gasta cinco por cento da energia de produzir do zero, e o Brasil é campeão mundial disso, com quase cem por cento das latas recicladas em dois mil e vinte e quatro. Reciclagem funciona quando a física e a economia fecham. Quando não fecham, é liturgia de cozinha. O seu canudo de papel não aparece nessa conta. Nem o seu elétrico. A conta é dominada por quem constrói usina a carvão de quase cem gigawatts por ano.
Marvin
E o gesto ainda anestesia. A pessoa se sente parte da salvação e fecha o olho para a criança com malária.


Akita
O gesto não move o termômetro. Compra a consciência. É pior que inútil. E o pensamento completo do Lomborg é ainda mais brutal: se o mundo rico zerasse todas as suas emissões e ficasse no zero pelo resto do século, o aumento de temperatura em dois mil e cem cairia sete décimos de grau Fahrenheit, menos de meio grau Celsius, na conta dele com o modelo MAGICC. O sacrifício total do Ocidente é um arredondamento.
Marvin
Parte da histeria existe porque a maioria das pessoas não tem noção de escala física do planeta. Vamos consertar isso, você disse. Começa pelo Sol, por favor, que ele não pede licença.


Akita
O Sol. A Terra intercepta continuamente uns cento e setenta e três mil terawatts de energia solar. A civilização inteira consome uns vinte. A razão é de mais de oito mil para um, e a Terra captura só uma parte em mais de dois bilhões do que o Sol emite. Uma única ejeção de massa coronal grande carrega bilhões de toneladas de plasma com energia na casa de dez elevado a vinte e cinco joules, algo como cinquenta milhões de bombas Tsar. Em mil oitocentos e cinquenta e nove, o Evento Carrington botou fogo em telégrafo e desenhou aurora no céu de Cuba. Nenhum painel de controle humano participou.
Marvin
A Lua deformando o oceano. Enquanto a gente discute canudo.


Akita
As marés são a Lua deformando o oceano: um bojo de água do lado dela, outro do lado oposto. O efeito lunar sobre a maré é de uns cinquenta e quatro centímetros. O do Sol, uns vinte e cinco. Na Baía de Fundy, a maré oscila dezesseis metros, e a cada enchente entram uns cento e sessenta bilhões de toneladas de água, mais que todos os rios do mundo somados no mesmo período. Enquanto isso, a Lua se afasta uns quatro centímetros por ano e o dia terrestre fica mais longo uns dois milissegundos por século. Há uns seiscentos e vinte milhões de anos, o dia tinha quase vinte e duas horas.
Marvin
El Niño esquenta o planeta sozinho, sem carro e sem indústria. A manchete do ano mais quente da história quase nunca conta isso.


Akita
Normalmente os ventos alísios empurram a água quente do Pacífico para oeste. A cada dois a sete anos eles enfraquecem, a água quente desliza para leste, e a temperatura média global sobe uns décimos de grau por um ano ou dois, sozinha. La Niña faz o oposto. Quando você vê uma manchete de ano mais quente da história, checa se tinha El Niño: quase sempre tinha. Nova York fica a uns quarenta graus norte. Lisboa, uns trinta e nove. Madri, uns quarenta. Mesma latitude. Nova York enterra em neve todo inverno. Lisboa e Madri têm inverno ameno em comparação.
Marvin
Latitude manda bem menos que corrente e vento. A Islândia que o diga.


Akita
Os ventos de oeste jogam ar moderado pelo Atlântico em cima da Europa, enquanto a costa leste americana recebe ar gelado continental do Ártico, com o Atlântico transportando mais de um petawatt de calor para o norte via a corrente meridional da qual a Corrente do Golfo faz parte. A Islândia, a sessenta e quatro graus norte, tem médias de inverno comparáveis às de Nova York. E o Saara aduba a Amazônia. Todo ano, uns cento e oitenta e dois milhões de toneladas de poeira saem da África cruzando o Atlântico. Uns vinte e oito milhões caem na bacia amazônica, carregando umas vinte e duas mil toneladas de fósforo, quase exatamente o que a chuva lixivia do solo da floresta a cada ano. O maior deserto do mundo alimenta a maior floresta do mundo, e isso acontece há milhões de anos antes de você nascer.
Marvin
Se você ampliar a escala de tempo, fica ainda mais absurdo. O Saara já foi piscina.


Akita
Entre uns onze mil e uns cinco mil anos atrás, o Saara era savana com lagos, hipopótamos e crocodilos, e a Caverna dos Nadadores, no Egito, guarda arte rupestre de gente nadando no que hoje é deserto. O motor foi o ciclo orbital de precessão, e a virada para deserto levou de décadas a poucos séculos, dependendo da região. E ela volta: o próximo máximo orbital de verão chega em uns dez mil anos. A Terra já foi uma bola de neve. Duas vezes entre uns setecentos e dezessete e uns seiscentos e trinta e cinco milhões de anos atrás, as glaciações Sturtiana e Marinoana levaram gelo até os trópicos. Há depósito glacial em latitude tropical para provar. A Terra saiu disso sozinha: o gelo global desligou o processo que tira dióxido de carbono do ar, os vulcões empilharam o gás por milhões de anos até centenas de vezes o nível atual, e o efeito estufa venceu o gelo.
Marvin
O Mediterrâneo já secou. Tubarão no Kansas. Planta passando fome de carbono. Continua, o planeta não vai caber neste episódio de qualquer jeito.


Akita
Entre uns seis e uns cinco milhões de anos atrás, o mar Mediterrâneo quase evaporou e deixou camadas de sal com mais de um quilômetro de espessura no leito. Quando o Atlântico rompeu em Gibraltar, a inundação encheu o mar de volta com noventa por cento do volume em meses a dois anos, numa vazão estimada em mil vezes a do Amazonas. No Cretáceo, com o nível do mar uns cem a duzentos metros acima de hoje, um mar raso partiu a América do Norte em duas, do Golfo do México ao Ártico. Mosassauro e tubarão nadavam onde hoje é o Kansas.
Marvin
E o dióxido de carbono, que na liturgia virou veneno, para a planta é comida.


Akita
No último máximo glacial, o dióxido de carbono caiu a umas cento e oitenta partes por milhão, perigosamente perto da faixa de cento e cinquenta em que plantas C3 começam a falhar. Árvore da era glacial preservada no piche de La Brea mostra fome fisiológica de carbono. As plantas evoluíram num mundo com muito mais desse gás, e hoje o planeta reverdece. O estudo de Zhu e colegas de dois mil e dezesseis, divulgado pela NASA, mediu reverdecimento em vinte e cinco a cinquenta por cento das áreas vegetadas entre mil novecentos e oitenta e dois e dois mil e nove, com uns setenta por cento atribuído à fertilização por dióxido de carbono. Se esse gás fosse veneno, não existia planta.
Marvin
Floresta tropical na Antártida. Clima de Nova Zelândia a novecentos quilômetros do Polo Sul.


Akita
Em dois mil e vinte, a Nature publicou a descoberta de raízes intactas de uma floresta temperada que cresceu a oitenta e dois graus sul, a uns novecentos quilômetros do Polo Sul, há uns noventa milhões de anos, com temperatura média anual de doze a treze graus. Clima de Nova Zelândia, na Antártida. E aí a frase que irrita: mudança climática é um oxímoro. Mudar é o que o clima faz, desde sempre, sem pedir licença. Na maior parte da história da Terra não existiu gelo permanente nos polos. A condição normal do planeta é estufa, sem gelo polar. No Cambriano, o dióxido de carbono era dez a vinte vezes o nível pré-industrial. No auge do Cretáceo, a média global era uns dez graus acima de hoje, ou mais. A Antártida só ganhou gelo permanente há trinta e quatro milhões de anos.
Marvin
As grandes mortes, que a histeria adora invocar, aconteceram cinco vezes antes de qualquer indústria.


Akita
Uns quatrocentos e quarenta e quatro milhões de anos, Ordoviciana, uns oitenta e cinco por cento das espécies, glaciação. Uns trezentos e setenta e dois milhões, Devoniana, uns setenta e cinco, anóxia oceânica. Uns duzentos e cinquenta e dois milhões, Permiana, a Grande Morte, uns noventa e seis por cento da vida marinha, vulcanismo. Uns duzentos e um milhões, Triássica, uns oitenta, vulcanismo. Uns sessenta e seis milhões, o asteroide dos dinossauros, uns setenta e seis por cento. Essa é só a mais famosa.
Marvin
Na escala recente, Manhattan debaixo de centenas de metros de gelo. Sem uma única usina a carvão.


Akita
A era glacial atual começou há uns dois milhões e meio de anos, com ciclos de gelo a cada uns cem mil anos no último milhão deles. Há vinte mil anos, centenas de metros de gelo cobriam onde hoje é Manhattan, e o nível do mar estava cento e vinte metros abaixo. Há uns onze mil e quinhentos anos, no fim do Younger Dryas, a Groenlândia aqueceu uns dez graus em cerca de uma década. Depois vieram o Período Quente Medieval, a Pequena Era do Gelo com o Tâmisa congelando até mil oitocentos e quatorze, e o ano sem verão de mil oitocentos e dezesseis, cortesia da erupção do Tambora. Tudo isso sem uma única usina a carvão.
Marvin
Mas espera, o cético da plateia vai dizer que você acabou de provar que o aquecimento atual não existe. É isso?


Akita
Nada disso prova que o aquecimento atual não existe, e a velocidade atual da subida de dióxido de carbono é sim mais rápida que os precedentes naturais. O Lomborg mesmo diz isso. O que essa escala destrói é a palavra fim do mundo. Um planeta que já esteve dez graus mais quente e com o mar cento e vinte metros mais baixo não está nos seus estertores. A discussão séria é sobre custo-benefício de cada política, que é exatamente a discussão que a histeria proíbe.
Marvin
A histeria morreu de causa natural: dinheiro. Medo não salva o planeta. Medo vende.


Akita
Medo não ajuda o ambiente e não melhora a vida de ninguém. Medo vende narrativa, financia consultoria, elege político e enche fundação de dinheiro. O custo dessa era está aí: trilhões torrados em gesto que não move o termômetro, enquanto quase cinco milhões de crianças morreram em dois mil e vinte e quatro antes dos cinco anos de doenças que o mundo desenvolvido esqueceu que existem. E aí veio a IA e encerrou o assunto por acidente. Repara como ninguém mais fala de COP em manchete. A conversa agora é gigawatt de datacenter, contrato nuclear de vinte anos, turbina a gás.
Marvin
Os mesmos CEOs que assinavam carta pelo clima disputam usina. Os mesmos governos que impunham canudo de papel aprovam subsídio para reator.


Akita
A pauta climática saiu de cena sem ser refutada, despejada por uma pauta maior. Se o fim do mundo estivesse mesmo na agenda deles, você não estaria vendo Three Mile Island sendo religada para treinar chatbot. Está vendo. Era teatro, e o teatro fechou quando apareceu um espetáculo mais lucrativo na sala ao lado. Medo não salva o planeta. Medo vende. E quem comprou o medo agora compra megawatt.
Marvin
Então era isso. A histeria durou enquanto pagou. A IA não refutou o clima, só ofereceu um negócio melhor na sala ao lado. Os números, os links, cada fonte e os dois livros estão no post de dezessete de setembro de dois mil e vinte e seis, no akitaonrails.com, e na descrição deste episódio. Newsletter, para quem insiste em voltar, themakitachronicles.com. Gravado em vinte e oito de setembro de dois mil e vinte e seis. Eu avisei que não ia ser alegre.
